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III É favor não fumar na bomba de gasolina

Sexta-feira, 01.06.12

Os homens são como as ondas,

quando uma geração floresce,

a outra declina.

 

Homero

 

 

O depósito ía a meio quando reparei que num carro próximo, disputando comigo a vez, um sujeito impaciente fumava ostensivamente, lançando desrespeitoso a cinza para o exterior, iletrado perante a sinalética de segurança, peremptório na sua arrogância e pronto para deitar borda-fora em incandescência o cadáver do seu vício.

A estupidez tem cheiro e pode muito bem ser a gasolina misturada com tabaco!

Comuniquei ao funcionário a míopia no que ao civismo dizia respeito do indivíduo e paguei.   

Irritado e pouco propenso a grandes reflexões, ainda assim, lembrei-me de um dos recentes artigos de Clara Ferreira Alves (CFA) que no Expresso, como a autêntica Pluma Caprichosa que costuma ser, se debruçou sobre a actual situação grega. Ich bin grega, dizia.

A apatia geral. O desgoverno. A corrupção. A especulação imobiliária nos pontos mais turistícos. A falta de escrúpulos. Os carros estacionados nos passeios. E a indiferença moral em relação a tudo isso. O laissez-faire generalizado. A Grécia que nos civilizou, nos deu a democracia, a filosofia e a maneira de nos entendermos vive num desinteresse crescente. Num “nada a perder” ou “deixa andar”. Mais pobre.

Semelhanças connosco? Sim. Óbvias. Um cenário que, em grande parte, nos faz lembrar o Portugal subserviente às exigências da Troika, como admitia CFA. De gente antipática desrespeitando o que encontrar pelo camindo (o seu). Onde calha. Em lugares de destaque ou enquanto atesta o carro. Fazendo vista grossa à dignidade alheia.

   Foi de tudo isso que me lembrei na bomba de gasolina. A Europa e a Grécia e Portugal, em particular, estão mais pobres. Por ironia, “pobre” resulta de duas palavras helénicas “penef”, remetendo para um viver modesto e aliado ao necessário e “ptohoi” para a mendicidade ou inexistência de sustento.

É quase institiva a raíz grega. Congénita. O berço civilizacional grego foi pródigo. Irreconhecível na actual Grécia de que fala CFA. Também podíamos falar no caos presente, do grego “kháos”.

Não é precisa tradução, pois não?

Já falência, palavra de uso recorrente, tem o passado latinizado em “fallentîa” e aponta, entre outros significados possíveis, para a falta.

E é notório que há muito a faltar-nos. A ruína económica estendeu-se à dos valores.

Isso é evidente até numa simples bomba de gasolina.

Mesmo antes de pagarmos o combustível, cujo preço nos coloca automaticamente no nosso devido lugar europeu.

Partilhado, obviamente, com os gregos.

Um universo paupérrimo, sem favores especiais para quem já deu mundos ao mundo e incapaz de se compadecer com berços.

Bem lá no fundo.

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publicado por Carlos M. J. Alves às 21:06

III O polvo Paulo

Quinta-feira, 31.05.12

[Fora da caixa e a braços com o futuro]

 

 

O futuro pode ser proeminente, ter doçura Häagen-Dazs, ser lido em folhas de chá, interpretado nos búzios, estar à vista por cima das nossas cabeças nos astros ou encontrado nas cartas da Maya. Pode estar até onde menos se espera. Quem sabe ao virar da esquina!

No entanto, o país inteiro está (à escuta?) atento ao que o polvo Paulo tem (a dizer?) a prognosticar. E, em exclusivo.

Perdendo as potenciais e habituais características lagareiras em relação aos cefalópedes seus familiares, Paulo ganha as de sibila. Porquê?

O polvo Paulo, aparentado do polvo Paul (com uma taxa certeira de sucesso no prognóstico de 8 jogos consecutivos), versão palhaço pobre e que habita o aquário do Sea Life Porto, pronunciou-se sobre os desígnios futebolísticos nacionais.

Previu, nesta terça-feira, a derrota de Portugal contra a Alemanha no Euro 2012, a 9 de Junho em Lviv, na Ucrânia.

Embora hesitando no empate (o que deixa espaço para a esperança), pois parece que não entrou de rompante na caixa respectiva, acabou por se decidir pela derrota, vaticinando qual pitonisa, devido às circunstâncias vacilantes da adivinhação, um jogo renhido.

Depois do empate a zero com a Macedónia, um certo clima de desaire instala-se em torno da selecção nas vésperas do último jogo de preparação, com a Turquia, a realizar na Luz.

   Jornalisticamente falando é coisa antiga e do conhecimento geral a ideia de que um cão morder um homem não é notícia. Já um homem morder um cão possui regalias de abertura de telejornal. O insólito é e sempre será um afrodisíaco informativo.

Vai daí um polvo que vaticina, cândido, resultados de futebol é por si só notícia.

Mas há ainda mais a dizer sobre o caso. Jogada de marketing do Sea Life Porto? Também, mas...

   Não tenho dúvidas de que um país com um polvo adivinho (e interessado nisso e orgulhoso) é uma nação com futuro assegurado.

Com ele findaram as minhas preocupações em relação à crise.

Para trás ficam os “eurobonds” que não são, nem deixam de ser, o FMI, a Troika, os casos, a politiquice, etc., etc.

Um país com um polvo e, ainda por cima um com garantias de nome de apóstolo, capaz de previsões acertadas, tem o futuro salvaguardado.

   Quanto ao resultado do jogo…

Da Alemanha tratamos depois.

Já vai sendo tradição.

Umas vezes Merkel outras Schweinsteiger.

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publicado por Carlos M. J. Alves às 09:15

III Quem fala verdade não merece a mentira

Domingo, 08.04.12

Queria que se entendessem quanto à austeridade. Que não errassem nas contas. Incluindo o que vem de trás. Amigas do cidadão. Comum. Sem tropeções. Ou rasteiras. Que não dessem o dito pelo não dito. A volta e não volta aos mercados. Que se pusessem de acordo. E, desculpando o incómodo, que se acertassem, de vez, datas.

   Preciso de esclarecimentos. Sigo os alertas. Mal vislumbro fumo grito, imediatamente, fogo. Estou em sintonia.

   Sinto o estômago pesado dos sacrifícios (uma azia generalizada). Uma realidade exigente. Refém da Troika. De nós mesmos. Que não vai em confortos, nem passa a Rennies. Não espera. Avessa a feriados. Desumana. Que nos limita.

   Ando apertado pelos furos no cinto da contenção. Em roda-viva no carrossel dos aflitos. Ânimo baixo pelas expectativas. Arrumado na prateleira dos desprevenidos. Agonizo em penitência financeira.

   Estou economicamente em alerta amarelo. Em banho-maria. Controlo spreads. Averiguo juros.

   Contenho-me.

   Temo pela segurança da minha reforma. Percebi que a saúde anda por um fio. Pela hora da morte. A justiça demora o seu tempo. Que em relação à segurança mais vale prevenir. Conformei-me (temporariamente?) com os doze meses. Justifico-me com o ciclo solar (?).

   Ando ao mais barato. De olho posto nas promoções. Nos saldos. Rebajas. Leve 3 e pague 2. Não compro sem desconto. Não vou em créditos. Cartões só de S. Valentim.

   Poupo nos aditivos do combustível. Não sou exigente com as octanas. Escarneço da auto-estrada.

Não vou em marcas. A não ser brancas. Preto no branco.

Dou tudo pelo grátis. Opto pelo mais em conta.

Concordo com os clichés: Quem não poupa água nem lenha, não poupa nada do que tenha.

Não tenho outro remédio do que preferir os genéricos.

Reciclo. Re-utilizo. Invento. Volto a por na moda. Não embarco em tendências.

Não tenho para a caridade.

Desligo interruptores. Dou caça às lâmpadas não económicas. Procuro torneiras gotejando tresmalhadas. Vivo em regime de tarifário económico.

   Estou em dieta de periódicos. Vou ao café. As notícias chegam-me com delay. Dia sim, dia não. É o bastante. Vivo bem com isso. Confronto-me com pensionistas impiedosos, fiéis ao Correio da Manhã. Um semanário fica-me pelo preço de uma bica.

Requisito em bibliotecas. Um romance, uma antologia de poesia e um livro de crónicas custam-me um descafeinado e um pastel de nata.

Televisivamente adiro ao público. Colo o ouvido ao rádio.

   Acredito que vai passar. Como bom português. Saudoso e o resto. Que as coisas vão mudar. Ainda que não se fique como dantes. «Se a gente não acreditar em nós, quanto mais os outros», insinua-se.

   Esquecendo:

«O que nos havia de acontecer!»

«Conheço um caso…»

«Soubesse eu o que sei hoje».

   Há-de melhorar. Ganhar perfil de Era uma vez. O futuro entregue, novamente, às crianças. Só não sei quando. Aguardo pelo dia D. Quando o nevoeiro levantar. Estou à coca. Melhores tempos virão.

Tudo está bem quando acaba bem.

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publicado por Carlos M. J. Alves às 09:53









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