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III Tecnologicamente activo

Domingo, 28.04.13

Com a tecnologia vamos mais longe, mais rápido e mais alto. O planisfério ganha contornos de mapa de aldeia, o longe torna-se perto, o intransponível relativiza-se. Não há vertigens nem cansaços desnecessários. Enjoos, desidratações, escaldões, ou o embaraço de ter de inventar uma desculpa com a pessoa à nossa frente.

A tecnologia poupa-nos energia e tempo. Evita o nosso desconforto, o jet lag... Vai e volta por nós, chega lá mais depressa e fresca que nem uma alface. 

Faz as contas por nós, corrige-nos os erros e, ainda, tem tempo para a prova dos nove. Organiza-nos a vida e  trabalha para sermos mais populares. Com ela a Austrália fica ao virar da esquina e Marte aparenta ficar nos arredores.

A tecnologia faz-nos chegar aos dois metros com um clique. Apresenta-nos como  Mr. Universo e tira-nos quilos sem complicações exigindo-nos, unicamente, a actualização do estado.

De uma maneira geral, oferece-se para as coisas chatas. Não há como não gostar de si.

   Sou tecnologicamente activo há anos. Vivo de antenas apontadas e entre pixéis, rodeado de bytes e informação a circular vertiginosa à minha volta. Tenho cabos, fichas, monitores e teclados, telemóveis de gerações ultrapassadas, em número suficiente, para o comprovar.

   A tecnologia e eu temos uma amizade antiga que foi evoluindo transístor a transístor, em colorido technicolor, estereofonicamente sonora e a custo de muita Ram. Com altos e baixos que é como quem diz com  upgrades e downgrades.  

Não tem sido fácil nem barato e tem exigido actualizações constantes, mas em termos de saldo continuo a trocar a caneta pela stylus a preferir a folha de Word ao caderno de linhas e a de Excel ao quadriculado em papel.

   O meu sonho é acordar e com um piscar de olhos a água do banho começar a correr. Um bocejo e a roupa aparece escolhida em cima da cama. Um ronco do meu estômago e as torradas estão feitas e o café da manhã preparado.

Ao longo do dia situações idênticas vão sucedendo, até chegar à noite e um suspiro abrir a porta do minibar e lá de dentro sair um gin tónico magnífico, demonstrando, mais uma vez, que entre o estar vivo e o estar morto fica, claramente, o estar  online e offline, plugged ou unplugged

  Obviamente que para alguns sou dependente, obcecado. Perfeito para uma fogueira anti-progresso alimentada por adoradores do ábaco. Alvo de chacota de ímpios que vivem numa zona aparentemente anti-wireless e sem preocupações com velocidade de rede.

Imunes a downloads e uploads. Avessos ao contágio internauta. Circulando em contramão ou optando pela nacional em vez da auto-estrada da informação. Acusando-me de falta de contacto olhos nos olhos. Descrevendo-me como um inspector Gadget com porcas e hélices saindo dos sítios mais improváveis e incómodos.

Ora isso é para mim algo incompreensível. Não gostar de tecnologia é não admitir que se desenvencilhem por nós. Até porque a tecnologia cala e consente. Sempre de cara alegre. Tem preço, mas não exige de volta, faz no nosso lugar, dá o corpo ao manifesto, mas não fica à espera. Uma secretária incansável e sem horário. Um trabalhador sempre disponível. Um funcionário que abdica das férias, feriados e descanso para nos oferecer tempo extra.

Em suma, para mim não ligar a tecnologia é não gostar que o ajudem. É contrariar milhões de anos de evolução preguiçosa.

   Não sei o que pensar, mas convenhamos, sem tecnologias de que outra maneira nos poderíamos ter conhecido?

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publicado por Carlos M. J. Alves às 09:16

III Pausa para café?

Terça-feira, 04.09.12

I have measured out my life with coffee spoons.

T. S. Eliot

 

I like cappuccino, actually. But even a bad cup of coffee is better than no coffee at all.

David Lynch

 


Coffee and Cigarettes é o título de três curtas-metragens e um filme de 2003 de Jim Jarmusch. Este último é constituído por um conjunto de 11 short stories e inclui, ainda, as três curtas iniciais. Pode ser, fácil e fidedignamente, sintetizado na constatação proferida por Iggy Pop durante uma das suas cenas:

Cigarettes and coffee, man, that's a combination.


O filme ajuda a justificar a opção, que pode parecer estranha ou até despropositada, de escrever uma crónica inteira a propósito do café. Em todo o caso, a juntar a isso posso afirmar que a minha vida não seria a mesma sem café ao Domingo de manhã e isso compensa o risco. Mas isso explicarei adiante.

De qualquer maneira, nesta altura, posso garantir que revoluções inteiras foram preparadas em cafés. Esboços passaram a obras-primas, guardanapos foram usados para conjecturar novelas e longas-metragens. E, a maior parte, começou com uma pergunta simples: "Queres ir tomar café?".

   "Queres ir tomar café?" é provavelmente o convite mais repetido em todo o mundo. Não é original, mas serve perfeitamente. Justifica tardes inteiras e entra pela noite dentro.

   Comecemos pelo café, propriamente dito…  Podemos chamar-lhe café, bica, cimbalinocoffee, Kaffee, koffie, caffè, kaffe, kahwah ou cahue que vai tudo dar no mesmo. 

Não conhecer a classificação Coffea arabica oferecida pelo naturalista Lineu não exclui saber degustá-lo. Nem desconhecer vocabulário gravitando em torno de grãos, plantações, máquinas e moinhos de café, como coffee break, coffee maker, coffee table ou coffee-table book. 

   Pode-se apreciá-lo com moderação ou beber demasiado. Usá-lo para justificar mais um cigarro. Temê-lo por causa das insónias. Tê-lo por perto para preparar, madrugada dentro, o exame final. Jurar que ataca os nervos. Afirmar que de manhã não se funciona sem ele. Querê-lo cheio, curto, em chávena escaldada, pingado, com cheirinho... Habituarmo-nos até a conviver com os que preferem chá.

Mas, acima de tudo, foi um dia feliz quando a humanidade alcançou o café instantâneo. Uma hora H ou um dia D.

   Confesso que escrevi este  post enquanto tomava café, o que demonstra o quanto é evidente a sua importância. Olhando em volta com gente mergulhando em jornais, ao telemóvel, escrevendo, consultando documentos pergunto-me: "Pausa para café?". 

Um café finaliza, mas também acompanha: o cigarro, o brandy, os nossos pensamentos, a nossa solidão... Um café ajuda a procrastinar. Dá azo.

   Sei do que falo (chegamos, finalmente, à explicação). Há dez anos e duas filhas atrás costumava encontrar-me "casualmente", num pequeno café, sem vivalma ao Domingo de manhã com alguém com quem partilhava estremunhado as peripécias do Sábado à noite e do resto das agruras semanais. Tempo parado e café duplo revitalizante à minha frente. Durante esse período continuei simulando encontros espontâneos e acidentais e a aparecer "casualmente" ao Domingo de manhã no café num horário terrivelmente madrugador com o pretexto de ter ido tomar café. 

Casamento foi o resultado desses cafés matinais. Até hoje.

Desengane-se quem aposta na Internet como local privilegiado para o romance, o meu conselho é o, nunca fora de moda, café do quarteirão onde moramos.

  Ora, o que o exemplo prova é que tomar café é um pretexto para uma série de coisas: para parar, para sair de casa, conversar, ver gente, uma oportunidade para espairecer. Mas também para fazer uma declaração de amor, trabalhar, um convite à reflexão, fechar contratos. Vai para lá do que cabe na chávena. Tomam-se notas, lançam-se olhares, escutam-se e observam-se os outros. Rodeado de artistas, intelectuais, apaixonados, pelo homem comum. Em espírito de tertúlia, reunião de negócios, encontro amoroso, de quem não tem dinheiro para mais ou que faz tempo para alguma coisa. É a saída mais barata.

E isso pode ser feito tanto num boteco simpático de São Paulo, num snack-bar da avenida da Liberdade, na esplanada da Pastelaria Suíça, n'A Brasileira do Chiado, numa qualquer coffee shop de Amesterdão ou num bistrô em decoração Belle Époque  francês. No Le Procope parisiense que por cá anda desde 1686, epicentro do Iluminismo francês e abrigo de Voltaire, Rousseau e Diderot  e berço da Encyclopédie ou na Rua Santa Catarina, no portuense Majestic, como Teixeira de Pascoaes, José Régio, António Nobre, Leonardo Coimbra.

Café, há em todo o lado. Serve-se tanto a muitos pés de altitude como no meio do oceano. 

É democrático, sinónimo de liberdade, não interdita.

   Perigos? 

Como se pode constatar pelo já dito, um café nem sempre é só um café. É, sem dúvida, a desculpa perfeita, o que o torna perigosíssimo.

  Um café empolga-nos, liberta-nos, dá-nos tempo, serve como pretexto, iliba-nos, tira-nos da rua, do que estávamos a fazer, das preocupações, dá-nos conversa.

É preciso dizer mais?

Serve-nos de companhia e tem a vantagem de não ter pompa nem circunstância.

  Vantagens? 

As mesmas que os riscos e o facto de saber bem, mais servir-nos de companhia, ser credível ao ponto de não ser mal-intencionado e soar melhor do que convidar para jantar ou ir dar um pezinho de dança. Para não falar de que não embaraça como uma ida à praia. No fundo, com ele, ninguém se mete em apertos.

Também não inibe, não obriga, não exige roupa a condizer, não é preciso saber estar e dá sempre para pagar os dois.

  Tomar café é gozar o ambiente e fazer parte dele. Desconsidera-se o prático, o ter que ir de propósito, a desproporção entre o que custa e a quantidade que se recebe.

Com sorte pode mudar a nossa vida, posso garanti-lo.

  Vou ter que ficar por aqui porque não há serviço às mesas e tenho de ir arranjar um copo de água para beber no final do meu abatanado.

Quando voltar quero olhar, novamente, para as minhas anotações e nada me daria maior satisfação do que contar com a sua opinião.

Os cafés são por minha conta!

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publicado por Carlos M. J. Alves às 18:30

III Água na Boca

Segunda-feira, 03.09.12

Humm, o que eu não dava para estar agora em Marraquexe. E o bem que me sabia um Bloody Mary, para não falar de que só de pensar num bife Wellington me crescem calores.

   A vida tem muito de apetecer. É desejo (incontrolável, às vezes). Querer. É cobiçar, ter ganas. Deixa-nos com água na boca para o apetitoso que coabita connosco. Seja lá isso o que for. Tolda-nos o raciocínio e deixa-nos de mãos atadas, presos ao que nem sempre devíamos. Põe tudo em estado de sítio e depois sai de fininho. Sabemos que não podemos (ou não devemos), mas...

   A água na boca serve para olear os parafusos que impedem um estômago vazio de amalucar. É como um varapau no ar, açoitando o fastio. Vem pegada ao abrir o apetite ou mostra-lhe o caminho e põe-no em liberdade entregando-nos a si. Sem ela nem o conheceríamos. E não pára até se instalar a fraqueza.

É um entretém. Primeiro põe-nos a esfregar a sola dos sapatos frente à porta principal e a fazer tempo, mas como não faz cerimónias, assim que consegue dirige-se à sala e senta-se à mesa, a postos, conquanto é uma espécie de casamenteira que nos prepara para as entradas e para o que se segue. 

E só ao vislumbre de digestivos dá o seu trabalho por terminado.

    A água na boca cresce sem se dar conta. É, obviamente, de vontades. É um "Deve estar óptimo!" ou "Que bem que deve saber!". Parte do pressuposto de que, provavelmente, vale a pena e que é, certamente, bom. Tem a ver com o parecer: parece que o gelado é óptimo, que a carne é tenríssima, que sabe ainda melhor do que aparenta. 

Vai ao cheiro. Afiança. É um "Acho que devias!" ou, sob a forma de desafio, "Assim, nunca vais saber!". Pode até enganar-se, mas convence. E faz gato-sapato até o alcançar.

Como é impulsiva, intempestiva e acelerada é coisa de e para espírito jovem, mas não só.

   Marimba-se para o resto, obrigando-nos a enfrentar o precipício com que nos deparamos. Não é de modas nem tem horários, mas tem tudo a ver com a barriga a dar horas. E é não ver o dia em que se sucede, ansiosa, e dar com os pés ao resto.

   Vira-nos do avesso. É um ferver de sangue que mata, implacavelmente, o mensageiro se não gostar do que ele traz.

É estar à rasquinha. Quase a rebentar. A não aguentar mais.

Uma vontadinha. Incontrolável. Impaciente.

Em rigor é diferente da inveja que é traiçoeira, maldosa e mal-intencionada.

    Sintomas?

Os pêlos atrás do pescoço são os primeiros a dar sinal, eriçando-se. Depois certo tipo de fornicoques e o inevitável ficar sem forças para resistir.

    Responsáveis?

A água na boca está entregue a mãos experimentadas: livreiros maquiavélicos, publicitários conhecedores das fraquezas humanas, a várias gerações de avós capazes de resistir há mais horrífica das torturas para salvaguardar os segredos que condimentam as travessas, chefs talentosos, vendedores...

    Exemplos?

Uma citação de Thomas Mann que nos deixa com vontade de ler de um fôlego A Montanha Mágica e Morte em Veneza, a lembrança dos cozinhados da avó, o sabor daquele mojito naquele bar a que não vamos há uma eternidade e que nos ficou, um trailer publicitário que nos desassossegou ao ponto de fazer reaparecer na nossa vida, durante todo um fim-de-semana, o que estava adormecido desde a infância: a saga da família Cartwright em Bonanza.

   Os especialistas bem que avisam que não se deve ir às compras de estômago vazio, mas o que me assusta é a água na boca. Passar nas proximidades de uma feira de enchidos é ficar a aguar para as alheiras de Mirandela e para o presunto de Chaves. Rondar a secção dos queijos é ficar assoberbado pelo amarelinho da epiderme dos lacticínios da ilha de S. Jorge ou obcecado pelo rótulo onde se lê Estrela que parece piscar o olho só para pôr o incauto a arfar e de água na boca, para lá da salvação. Perdido. Em apuros.

   Bem podemos repetir "Häagen-Dazs nunca mais, Häagen-Dazs nunca mais, Häagen-Dazs nunca mais", mas se nos distrairmos e nos começa a crescer água na boca, o caldo está, irremediavelmente, entornado.

   A água na boca não pode ser compensada. Faz estragos e pronto. E não é só com a comida.

Também funciona diante de uns sapatos Luís Onofre que antecipamos calçar que nem uma luva. 

Livros. Alguém falou em livros?

Se houver um bibliófilo que me convença de que não há sempre um livro a fazer falta, exijo que partilhe o segredo de como o consegue.

Fnac, BertrandBulhosa... as prateleiras das livrarias têm propriedades de refogado aromático em preparação no que ao despertar água na boca do leitor concerne.

E os gadgets?

Repletos de funcionalidades high-tech, apelando convincentes ao consumismo.

Mais os automóveis?

Espaçosos, confortáveis, poderosos, na cor preferida, repletos de estatuto. 

Também empregos bem pagos são uma possibilidade excelente para nos fazer crescer água na boca. Ele são os rendimentos elevados, as regalias, prémios, comissões, estacionamento...

   É preciso estar atento. A água na boca é o início da tentação.

Um entusiasmo.

É um fazer-se ao piso.

Um tambor atacando o rufo, preparado para o grande evento.

O antes de tomar-lhe o gosto.

É um nhami!.

   Solução?

Fugir é o melhor remédio. Mas tem, obrigatoriamente, de se ser rápido.

   O meu truque pessoal?

Entregar a carteira a terceiros. Imediatamente. E fazê-los jurar que esta nunca será devolvida, mesmo sob ameaça de subir ao ponto mais elevado do El Corte Inglés e atirar-se. Falando, meramente, no campo das possibilidades, coser a boca seria outra hipótese. Mais extrema, admito.

   E agora alguém que me tire aquela sobremesa do meu ângulo de visão. Não sei se o sou capaz de fazer ordeiramente. Há regras simples que não devemos desrespeitar. Conhecer os nossos limites é uma delas. Tenho medo de tentar furar o esquema. Preciso de ajuda. Alguém que me demova, que me acuda, rapidamente. O melhor é pôr-me ao fresco.

Claro que, em relação à água na boca, tudo acaba quando passa a vontade. Mas isso pode demorar algum tempo e às vezes é tarde demais.

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publicado por Carlos M. J. Alves às 08:41

III Praguejar: sobre o grau de pureza de cada um

Sexta-feira, 31.08.12

Perante uma posição de perigo, a presa agiliza o trote e precipita-se na sua mais impetuosa corrida. Alguns animais camuflam-se ludibriando o predador com a paisagem circundante. Outros desafiam as probabilidades e apostam no ripostar. Certos lançam odores dissuasores. Se o animal rosna, barafusta, larga baba, em situação de desagradável confronto o homem perde-se em palavrões. O que nos distingue dos animais face à adversidade é a nossa capacidade de praguejar em barda.

   Nem sempre somos civilizados, delicados e bem comportados apreciadores de Bach e Moët & Chandon. Um palavrão é visceralmente indispensável para a nossa caracterização e diz muito sobre nós enquanto espécie.  

  Ante a demora da senha nº56 para a porta B, ante o apuro ou irritação, o nosso instinto não é de fuga, luta ou de estratégia de sobrevivência, é praguejador.  

  Se o palavrão possibilitar avaliar o grau de virilidade, a maioria dos elementos que se deparar com uma fila de trânsito será, maioritariamente, considerado homem de aço e em relação ao seu grau de pureza estará longe de ser apreciado como uma  lady virginal.

   O palavrão atravessa o nosso próprio crescimento individual. O nosso estado de desenvolvimento pode ser, facilmente, atestado em certos escalões etários pela cifra de palavrões conhecidos, cujo mínimo não poderá (por questões de garbo) ser inferior ao da miúda no ano a seguir a quem cresceu peito nas férias grandes e que sabe suficientes para contrapor aos elogios que lhe são dirigidos ao crescimento repentino.

   Também em condições de aprendizagem o palavrão é fundamental. Para ninguém ficar embaraçado fica a pergunta retórica:

Gramáticas à parte o que se decora, imediatamente, quando iniciamos o estudo de uma nova língua?

   Praguejar não é bem um defeito, é uma necessidade, um alívio... é como as gorduras cujo bem que sabem não compensa o mal que fazem, mas... as vantagens são inúmeras: praguejar tem propriedades anedóticas e, portanto, mais piada do que a erudição; parece ter capacidades apaziguadoras mas, também, de incitamento, admoestação, intimidação...

   Em termos de comunicação, praguejar é um comportamento de superior riqueza e potencial. Uma instituição. Um palavrão não se diz, entoa-se, como um cântico ancestral. Não é uma questão de vocabulário rudimentar. Se pensarmos bem, quantos sinónimos conhecemos para fezes? E pénis? Dezenas? Centenas?

   Obviamente que existem cenários e situações mais propícias que outras para a utilização de um palavrão: o árbitro que parece que não vê, o condutor que dá a sensação de ter comprado um carro sem piscas...

Também em termos de inferno de ordinarice podemos ir de um círculo exterior mais rudimentar ao nível de um "Raios te partam!" até ao círculo mais interior e central desta circunferência brejeira e de fazer corar o marinheiro mais bêbedo.

    É verdade que à força do palavrão as coisas não andam mais depressa nem correm melhor, mas praguejar liberta. Faz bem. Tem pundonor. É o fim da linha. Uma descarga de bílis contra as gasolineiras, as petrolíferas, o fisco, o governo, o serviço nacional de saúde, o vizinho... coloca-se a cara de Scarface e zás!

    Com o mais popular dos palavrões não se esgrimem argumentos, parte-se, automaticamente, para a boçalidade, mas isso não é nem uma preocupação nem um embaraço. 

   Em retrospectiva, um palavrão é um exagero. Injustificável.

Tudo o que vai além de um "Chiça!" é indecoroso, indesculpável, ofensivo.

    O palavrão é rasca. É reles. Sem classe. É descer à lama. Tira estatuto.

Alguém conhece penitência? Haverá adequada?

    O palavrão manda-nos para caminhos remotos e sinuosos. Expulsa-nos das boas maneiras e do bom gosto. Carece de bom senso e senso comum. Quem ouve olha com feições de "Deves estar muito orgulhoso!".

Um palavrão acusa, elimina, é prático. Em caso de dor, por exemplo, não dizemos:

 

"Estou com uma sensação incómoda, excruciante, associada a um processo destrutivo dos tecidos expressa através de uma reação orgânica" ou  "Estou aqui com uma resposta lancinante, resultante da integração central de impulsos dos nervos periféricos, activados por estímulos locais" ou, ainda, "Esta dor ciática que se iniciou na região lombar e que percorre todo o meu membro inferior é muito desagradável".

 

Largamos, prontamente, um "raios e coriscos" com bolinha vermelha no canto superior direito da moralidade e há um alívio de placebo que, embora ilusório, resulta. Retempera-nos.

     

Sobre praguejar que mais dizer?

Em relação aos palavrões, pode ser-se mais ou menos ousado. Se para alguns puristas um "carago" é uma bomba atómica, para outros não passa de um fulminante cacofónico.

   E depois há a parte cultural. Se o norte é uma nação, os palavrões preenchem pelo menos duas estrofes do hino. E ainda bem.  Tira-se a brejeirice ao S. João e só lhe resta a martelada.

   Orgulho?

Não.

Mas o que é que podemos fazer?

Nem todos podem ter temperamento de jovem gazela fugindo lesta ao leão.

A culpa não é nossa. Não se pode travar a evolução.

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publicado por Carlos M. J. Alves às 10:00

III O gosto, digo, A arte de complicar

Terça-feira, 15.05.12

Se em tudo o mais forem idênticas as várias explicações de um fenómeno, a mais simples é a melhor.

 

Navalha de Ockham

[William de Ockham, frade franciscano inglês do séc. XIV]

 

Ser complicado é um arrepiar caminho para a desistência.

É ser português. No que tem de pior em sê-lo.

Um luxo. Sai caro.

Acaba-se sem nada. A precisar de consolo. De colinho.

Quase prefiro asneirar. Asneirar é pisar o risco. Complicar é…

Bem, complicar é complicar. Não são precisas grandes explicações.

Sabem do que estou a falar. É o contrário de relativizar. A outra face da picuinhice. O plano oposto do deixa andar.

A complicação é inexpressiva. Com e sem botox.

Actua sem se dar conta. Nisso é como as vacinas.

Mas acaba por matar. Como um vírus mortal.

Simplicidade, isso sim é uma qualidade. Mas, rareia…

   Por questões de stress, produtividade, índices de felicidade e falta de pachorra, às vezes acho que não devia complicar. Esse elemento podia e deveria ser-me contabilisticamente retirado.

O título do post é um exemplo da minha incapacidade de o conseguir. Sem prémio de consolação para a minha desmotivação.

   A mudar alguma coisa em mim seria a minha mania de complicar. Acerca de fumar, já falei primeiro (desesperado) aqui, aqui e depois aqui (inchado como um peixe balão). Mas, o que lá vai, lá vai.

A minha vontade era ter audácia épica de Eneida para deixar de complicar. Entrar num restaurante com reconhecimento Michelin e, inconsciente, não me negar a manjares e néctares e permanecer sereno mesmo quando, tranquilamente, solicito a conta que sei não poder pagar. Sem complicar. Como quem tem uma Troika pessoal à perna e isso não o preocupa. Um Howard Stern aspirando, sem condições, a nobel da paz mas convencido da vitória certa.

É caso para dizer: «Se eu tivesse juízo, não queria saber».

Porquê?

Na expressão do produto da “realização pessoal” [a eterna subtracção entre o feito e o que ficou por fazer] temos:

 

{o já feito [(trabalho+empenho) - capacidade para complicar] - o que ficou por fazer}

sonhos+ambição

 

Tudo seria diferente se não contássemos com as complicações. Oh, dias de grandes realizações! Complicar atrapalha. Desmotiva. Faz desistir. Reduz.

É uma óptima maneira de arruinar boas possibilidades.

De evitar arregaçar as mangas.

“Não vou dizer isso”, “fazer aquilo”, porque… Hum, se fosse bom não estava guardado para mim.

Um pesadelo sem ser preciso estar a dormir.

É nascer a querer ser já crescido.

É um driblar-se a si mesmo.

Exige sempre um impresso suplementar.

Suscita a dúvida e a hesitação.

Quem complica não dá mundos ao mundo.

É partir e repartir e ficar com a pior parte.

Pode, eventualmente ter o seu quê de preventivo. É um Pantene Pro-V, bem intencionado, no resguardo do couro cabeludo. Mas não passa disso.

Evita, por exemplo, mais candidatos para o Ídolos.

Mas…

   Se a complicação fosse uma música seria uma marcha triunfal. De melodia fanfarrona. Quem não passa sem ela?

   “Complicar” está nos antípodas do “deslumbre irrealista”. Algures entre Nelson na Nova Zelândia e o Mogadouro.

Sem pensar muito no assunto, repetindo para mim «descomplica!»,  o meu sonho é um destes dias ocupar Paris. Metaforicamente falando, claro! Isso seriam dias de grandes realizações.

   Contra os canhões marchar, marchar!

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publicado por Carlos M. J. Alves às 18:38

III Deixar de fumar é uma questão de tempo

Segunda-feira, 07.05.12

O vizinho do lado a puxá-los e eu a resistir. À justa. À rasca. Queixoso. Tentado. A vê-los amontoar. A quererem saltar do maço. Insinuando-se em elipses. Provocando-me, género E.T come home.

Nada! Puro desprezo. Por mim acaba tudo esticadinho e feito às postas no Roswell-cinzeiro sob a forma de beata.

   É oficial. Deixei de fumar. Anunciei-o ao mundo, claro! Em jeito Lauro António apresenta. Até porque, com o deixar de fumar nasce um novo tópico de conversa: dizer que se deixou de fumar, que as ameaças, finalmente, se concretizaram. Passa a existir, insistentemente, um «sim, sim, mas não sei se sabem deixei de fumar» que arrepia caminho.

Influxos de uma adrenalina especial sobem e descem por mim como numa montanha russa.

   Sinto-me Free at last! Oh, Lord! Free...at...last!

   A auto-estima ressente-se. Adapta-se. Acomoda-se. Com o deixar de fumar o “não” sai fortalecido. O “talvez” perde preponderância. E o “sim” é destronado. Em algumas alturas parece desenrolar-se dentro de mim um episódio de Kung Fu e eu sou Kwai Chang Caine aka David Carradine, cheio de dúvidas:

 

Disciple Caine: Master, our bodies are prey to many needs: hunger, thirst, the need for love.

Master Kan: In one lifetime a man knows many pleasures: a mother's smile in waking hours, a young woman's intimate, searing touch, and the laughter of grandchildren in the twilight years. To deny these in ourselves is to deny that which makes us one with nature.

Caine: 'Shall we then seek to satisfy these needs?

Master Kan: Only acknowledge them and satisfaction will follow. To suppress a truth is to give it force beyond endurance.

 

   Deixei de fumar. Não há volta a dar. Sinto-me mais sábio. Com consciência Shaolin. Arrebatado por uma iluminação a que falta unicamente a fluorescência.

Se a inveja fosse viscosa existiria um rasto de baba e ranho à minha volta que se prolongaria até às Seychelles, com origem nos que não me perdoam ter conseguido.

   Nunca me dei prazos. Embora a expressão deadline, tendo em consideração o contexto, fizesse sentido. Também nunca houve uma avaliação vox pop, de anos, de evidências de que o tabaco faz mal. Fui deixando avolumar as desculpar em estratégia hit-Parade até me sentir preparado. E um dia como uma surpresa Kinder consegui. Uma mera questão de bom timing? Talvez.

Agora que efectivamente consegui, embora tenha passado pouco mais do que o tempo de um single (ainda existem?) parece uma eternidade. A satisfação faz-nos aldrabar o tempo (também o psicológico). A cronologia. Triplica-se os dias. Arrebatam-se semanas. Desrespeita-se as regras da adição. Um dia sem fumar vale mais do que vinte e quatro horas convencionais. Até porque, sem fumar nos sobra tempo. Por exemplo, para dizer que deixámos de fumar.

   Uma purificação alastra em mim. Uma pureza crescente. Um autêntico processo de revirginização está em marcha.

Mais umas semanas e terei resistências equiparáveis a quando tinha dezoito anos, pele de recém-nascido e cheirarei à menina que trabalha na Parfois. Mais umas temporadas e com as poupanças ficam-me a dever um Ferrari.

   Deixei de fumar. Ufa! Vendo bem as coisas até nem foi muito difícil. Há sonhos que demoram uma vida inteira a realizar. Raios, não se tratou de por fim à extinção do lobo ibérico. Proponho-me novos objectivos:

ver os elefantes do Botswana

pernoitar numa vila privativa nas Maldivas

deambular no deserto israelita

Parece que já me estou a ver a comemorar com champanhe e um belo charuto.

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publicado por Carlos M. J. Alves às 10:15

III Deixar de fumar = vegetar

Domingo, 29.04.12

É do conhecimento geral que uma mentira repetida várias vezes, não passando a ser uma verdade é aceite como tal.

Estou há 72 horas sem fumar. Essa é a parte que é verdade. Verdadinha!

A outra, a que não interessa, é que deixei de fumar.

Essa vou repeti-la muitas vezes, porque temendo que não seja verdade, vou aceitá-la como tal.

   Convencer-me a deixar de fumar é uma subtileza que se insinua, discreta, como uma colónia atrás da orelha.

É, sem dúvida, mais fácil persuadir um adolescente a apreciar a pintura de Rubens do que a mim a deixar de fumar. Nessas alturas (de tentativas inglórias) repito a mentira e aceito-a como verdade.

   Apesar de tudo estou orgulhoso de mim. Das minhas 72 horas. Vivo num ambiente passional do tipo Love Boat. Em regime de auto-deslumbre. Doce como uma torta Dancake.

   Considero-me um Zezé camarinha bem-sucedido, passando Nivea Lotion e garantindo Ai lave iu às súbditas porcinas de Sua Majestade [Que saudades que eu tenho do verão!].

Isto num campo, meramente, metafórico, relacionado, em exclusivo, com o meu auto-deslumbre.

   Já me sinto a ficar mais saudável. Estou só à espera que pare de chover. A chuva inibe o desportista que há em mim.

   Bons ventos vão-me empurrando como uma invencível armada até uma enseada segura, carregando pelo caminho sobre caravelas inseguras. Até parece que oiço (como num pesadelo) os Trovante cantando a Xácara Das Bruxas Dançando:

 

Ó castelos moiros, armas e tesoiros

Quem vos escondeu

Ó laranjas de oiro que ventos de agoiro

Vos apodreceu

(…)

Caravelas, caravelas

Mortas sob as estrelas

Como candeias sem luz

Os padres da inquisição

Fazendo dos vossos mastros

Os braços da nossa cruz

Caravelas

 

Entusiasmo-me. Progrido nas horas. 72 e contando. Eu que nunca liguei muito aos Trovante a não ser aquela que toda a gente gosta [Perdidamente] com o poema de Florbela Espanca acicatando não as vitórias (como um autêntico Virgílio) amorosas, mas as desventuras de um marcador afectivo a zeros:

 

Ser poeta é ser mais alto, é ser maior

Do que os homens! Morder como quem beija!

É ser mendigo e dar como quem seja

Rei do Reino de Áquem e de Além Dor!

(…)

E é amar-te, assim, perdidamente...

É seres alma, e sangue, e vida em mim

E dize-lo cantando a toda a gente!

 

   Estou há 72 horas sem fumar. Já tinha dito, não tinha? Não é muito, mas já conta. O pior no fumar é deixar. E o igualmente mau em fazê-lo é a memória. O cigarro que se fuma a acompanhar o café. A leitura do jornal. Enquanto se espera. Enquanto, enquanto, enquanto…

Optei por deixar de fazer. Simples, não? Libertar-me da submissão ao cigarro e da escravatura da rotina e do hábito.

Sinto-me um vegetal.

Hoje estou naqueles dias em que preciso, urgentemente, de sol e de ser regado.

Apesar de tudo, continuando a ouvir o Luís Represas com os Trovante:

 

Caravelas, caravelas

Mortas sob as estrelas

 

Jurando que meia verdade me basta.

72 horas e 30 minutos sem fumar. E contando.

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publicado por Carlos M. J. Alves às 10:33

III Arrependimentos à parte

Terça-feira, 17.04.12

Digo-vos que assim haverá maior alegria no céu por um pecador que se arrepende, do que por noventa e nove justos que não necessitam de arrependimento.

Lucas 15:7

 

Está por fazer a estatística global de arrependimentos. O apuramento da média de contrição diária. O total para um adulto saudável, moralmente empenhado e sexualmente activo, de remorsos. Quem nunca se arrependeu que atire a primeira pedra. É um vicío.

   O arrependimento é para quem se preocupa com a absolvição. A sua ou dos outros. Tem target assegurado. É à conta para dar razões. Apresentar justificações. Favorável a quem se escusa. Benéfico para quem evita. Para quem se atrasa. Ou se engana.

É inerente. Natural. Um software visceral com upgrade vitalício, continuamente em funcionamento. Urge o unplug.

  Saibam, porém, que o arrependimento não perdoa. E desculpas aproveita-as quem quiser. A vida tem propriedades de irremediável. Inconformável.

   Para cada arrependimento ou qualquer «estou arrependido» devia existir uma figura que implacavelmente diria «não vou nisso», «faz-te à vida».

   Who cares?

   O arrependimento devia, realmente, matar. Não ficar pela ameaça. Pelo bluff. Há razões mais que bastantes. Se o arrependimento matasse era outra conversa. Não devia ser um “se”, antes uma fatalidade, um “já está”.

Vou mais longe. Digo até mais. Por cada vez que nos arrependêssemos por algo que deixamos por fazer ou de fazer devíamos morrer várias vezes. Não tenho dúvidas. Em catadupa. Devagarinho. Uma por cada hesitação e outra, final, em dose mais dolorosa por termos optado por deixar a meio ou desistir.

Olho por olho, dente por dente. Um lex talionis feroz. Por cada comentário interrompido ou calado pesarosamente, uma língua perdida. Por cada passeata abortada chorada, semanas de entrevamento. Por cada doce extra renegado, cinco quilos suplementares nas ancas.

Por cada embaraçante grama de álcool a mais no organismo tombos vitalícios.

Só assim abriríamos os olhos.

   O arrependimento e o remorso são castigos leves. Quem tem medo? Uma consciência ao fim de algum tempo deixa de estar pesada.

É de baixa manutenção. São trocos. É algo que se sente, não é preciso fazer nada. É para calões.

  Quem se arrepende chora sobre o leite derramado. Um “não tenho paciência” devia ser exemplarmente castigado. Preventivamente. Tal como um “não me apetece”, ou um “não estou para isso”.

Ao primeiro “depois logo faço”, com possibilidade de arrependimento, devia abater-se um raio fulminante sobre o indivíduo.

O arrependimento, tal como as boas intenções só servem para encher infernos. São farinha do mesmo saco.

O arrependimento é uma coisa chata. Em arrependimento não se morre mas vive-se aos bocadinhos.

Deve ser algo a evitar. Ou usado com parcimónia. Só se não houver alternativa.

   Em relação ao arrependimento a minha opção é clara. Não tenho dúvidas quanto à prioridade. Prefiro fazer primeiro e arrepender-me depois. Não deixar por fazer. Esse é o pior dos arrependimentos. Mais vale ir a direito. Antes um impetuoso, trilhando caminhos nunca dantes percorridos, desiludido do que um céptico arrependido.

   O arrependimento é um luto pelo “não feito”. Um requiem pela opção errada.

Tem o seu quê de Madalena. Devia ser contabilizado. Devia retirar créditos. Ser calórico para fazer engordar. Para ser visível.

  O arrependimento agiganta-se a esteroides poderosos de culpa. Banalizou-se. É levado de ânimo leve.

Troco um 10 de Junho e três dias de Carnaval por um dia inteiro sem arrependimentos. Devia haver o dia livre de arrependimentos. Desimpedido. De circulação espontânea. Descuidado. Sem consequências.

   Admiro alguém que diz: «Não me arrependo de nada». Mesmo que esteja a mentir. Respeito mais, facilmente, um mentiroso do que um arrependido.

   No entanto, tenho de admitir que, se o arrependimento matasse, hoje já tinha morrido, pelo menos, três vezes.

Quem me dera estar a mentir.

 

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publicado por Carlos M. J. Alves às 16:09

III Tremo só de pensar em ter calma

Segunda-feira, 02.04.12

Há sempre algo que nos aborrece. Que nos consome. Que nos faz saltar a mola. Ou a tampa. Disparar a válvula. Algo que nos faz perder as estribeiras. Passar dos carretos.

A palavra que não conta. O orçamento que não vale. O horário (in)flexível. A fila que não é respeitada. O trânsito desgovernado. O imposto em que se volta a mexer. O combustível que torna a aumentar.

   Há alturas em que perdemos o cool que existe em nós. O porreiraço enviesa. Abandonamos a atitude party people. Ficamos cheios de mau-vinho. Zarpamos do Harlem Shufle groove e sheet will happen. Abram alas.

A paciência esgota-se. A compostura desaparece. Escapa, por entre os dedos. A calma extingue-se como os dinossauros, saltando eras.

Tornamo-nos Samuel Jackson (Jules) em Pulp Fiction, pregando:

 

There's a passage I got memorized. Ezekiel 25:17. "The path of the righteous man is beset on all sides by the inequities of the selfish and the tyranny of evil men. Blessed is he who, in the name of charity and good will, shepherds the weak through the valley of the darkness, for he is truly his brother's keeper and the finder of lost children. And I will strike down upon thee with great vengeance and furious anger those who attempt to poison and destroy My brothers. And you will know I am the Lord when I lay My vengeance upon you."

 

E depois é o caos.

   Mas há sempre alguém com vocação conciliadora. Com temperamento diplomático. Um Xanax com pernas. Um Valdispert com olhos. Os “acalmadores”. De palmadinha pronta para aplicar nas costas (as nossas). Alguém que solicita ao pau-mandado que gostava de ver em nós: «Vá lá, tem calma!».

Justificando, com as contas feitas: «Não vale a pena chateares-te».

E nós ainda com a prova dos nove por fazer, já temos o troco em condições de ser devolvido. Achando que há sempre algo a ganhar. Se formos a jogo arriscamo-nos a conquistar a Champions. Graças à nossa audácia. Que se lixe a calma!

   Acalmar é desistir. É ir parar ao banco.

Protestar. Esbracejar. Praguejar. É para quem joga à frente. Ao ataque. Desde o início e até ao fim do desafio.

De nada vale dizer: «Vá, tem calma!».

Acalmar enerva [Gritado]. A calma é o que mais me irrita.

O “ter calma” não leva a lado nenhum. É um empata.

I lay My vengeance upon you, e acabamos aos tiros com Mr. 9 mm. Isso sim, é opção.

 “Ter calma” é um coito interrompido. É deixar o serviço a meio.

Ter calma não é natural. How can you have a day without a night, perguntavam os Massive Attack em Unfinished Sympathy. Impossível. Como ter um ser humano que não se enerva com nada.

Não merece respeito. O meu pelo menos. É um coninhas.

Se tivéssemos nascido para ser calmos não tínhamos nervos. Já perdemos tanta coisa na Autobhan evolutiva que ninguém daria pela falta de mais isso.

   Todos temos o nosso rastilho. O nosso pavio curto. Quando me dizem “tem calma” tremo. Ao segundo “tem calma” a minha lava revolve-se. Ao terceiro eclode em mim um Vesúvio e temos no mínimo duas Pompeias pelo preço de uma. O meu grau de tolerância não vai tão longe. Manca. No máximo suporto um “tem paciência”. Tops.

   Não preciso que me lembrem os maus livros dos meus escritores favoritos. Que votei mal. Quando oiço pronunciar Bee Gees franzo o sobrolho. Ao avistamento de um exemplar de Nicholas Sparks, rosno. Paulo Coelho, parto para a violência. ABBA e já sou homem-bomba.

Não quero ter calma. Para mim a calma não é para “ter” é só para saber que “existe”. Tem clientela própria como a Quinta da Marinha ou Vale do Lobo. 

O “ter calma” enerva-me. Mexe-me com os feles. Dá-me cabo dos fígados.

Ao primeiro “tem calma” saio do auto-controle para comprar cigarros e nunca mais volto.

O “tem calma” atinge-me com precisão de sniper. Vai-me cirurgicamente aos pontos vitais da minha pachorra.

Fecha o tribunal da contenção (com ponte assegurada) e abre a portinhola da justiça pelas próprias mãos.

Parto, imediatamente, para a ignorância. Digo [Gritado]: “#$&%%$&%/*1(/+?

   Hipertenso? Claro.

Adoro o sabor a Nebilet 5 mg pela manhã. Inteiro. É um pequeno preço.

O quanto não vale um valente murro na mesa!

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publicado por Carlos M. J. Alves às 09:33









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