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III Homem ao mar

Sexta-feira, 23.08.13

A praia estava em dia de "cabe sempre mais um", elitista como uma doença venérea e com bandeira em verde psicológico.

   Apreciador modesto de enchentes e admirador irónico das massas, olhou as cercanias ofendido pela afluência de turistas estirados em segunda fila.

   Aproveitou uma aberta súbita e levantou-se, olímpico, com modos de consumidor final, motivado o suficiente para enfrentar a concorrência.

   Ajeitou a Pierre Cardin semi-genuína de verões passados, perto da vencedora do prémio o-primeiro-chapéu-de-sol-a-voar-na-praia, e do indígena com a opção, infelizmente tomada, de mandar tatuar o nome próprio em dois terços do tórax em ponto cruz gótico: Tiago.

   Enfrentou as movimentações dos desistentes vítimas do vento fresco, pisando o satus quo que lhe aparecia pela frente: povo protegido com protector solar como linguado panado, nobreza fresca e uma poça de beatas ainda acesas na areia.

   Corajoso avançou a bom ritmo ansioso por se acercar do alvo, como quem entra em território inimigo, até chegar ao objectivo nº1: uma nesga de Atlântico. 

   Primeira paragem forçada, um anjinho a estorvar a circulação até à orla marítima fazendo parte do grupo de crianças-obcecadas-por-gelados-que-choram-até-os-pais-cederem a gritar "fónix mãe, compra lá" e "bué da louco".

  À sua frente uma feroz competidora, invejando a mesma aberta agora semi-fechada pelo membro crianças-obcecadas-por-gelados-que-choram-até-os-pais-cederem. Uma ágil alma plena de modernidade com a parte rente ao umbigo do biquíni com a inscrição Battle (meia nádega esquerda) Royale (ocupando na íntegra  a gémea direita).

  Desviou-se intrépido das leitoras furtivas das Cinquenta Sombras de Grey e dos concentrados nas novidades futebolísticas com ares de honoris causa a folhear oTimes e continuou. 

  Evitou, também, castelos de areia ameaçados menos pela maré e mais por pés de atleta distraídos arejando chulés, veraneantes com nadadeira traseira em fio dental e alguns jovens com x e y baralhados.

  Desculpou-se ao pisar os que estavam em posição comprometedora de "andamos todos ao mesmo" agarrados entre si como comunidades de mexilhões e venceu mais cinco metros.

  À chegada ao local, por todos cobiçado, fez pontaria e ofereceu de chapão o corpo escaldado ao oceano.

  Pelas 16.45 a posição estava, completamente, conquistada. A temperatura tinha baixado mas valia a pena.

  Sem tempo para saborear a vitória, levantou-se tísico do gelado das águas, por entre os que tinham como ele os cotos a salgar, tilintou os dentes abaixo do necessário para uma dentição normal de adulto e procurou no firmamento dos corta-ventos, barracas e chapéus-de-sol, a toalha Pierre Cardin semi-genuína.

Nada.

  Sem sucesso e como um devoto frequentador dos perdidos e achados a única coisa que descortinou foi um grupo de jovens já entradas com as olivas ao sol, lutando por um pedaço de férias e comparando anotações nos missais a postos para as vésperas.

  Não encontrou a toalha. Só um rabo conhecido, serpenteando os avançados com paredes de sacos térmicos em forma de Kitchnette, com a inscrição Battle Royale.

   O regresso estava comprometido.

Não entrou em pânico e voltou a procurar a Pierre Cardin semi-genuína de verões passados. 

Nada.

Procurou, então, a vencedora do prémio o-primeiro-chapéu-de-sol-a-voar-na-praia.

Nada.

Não desistiria.

Em boa altura o fez porque um pouco mais à frente pareceu-lhe ver o anjinho do grupo de crianças-obcecadas-por-gelados-que-choram-até-os-pais-cederem provavelmente ainda a gritar "fónix mãe, compra lá" e "bué da louco".

E, ainda mais importante felizmente, ao longe, conseguiu descortinar um ponto cruz gótico ocupando dois terços de um tórax com o próprio nome.

Era o  Tiago.

Estava salvo.

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publicado por Carlos M. J. Alves às 16:05

III Tanto barulho para nada

Quinta-feira, 08.08.13

 

I wish my horse had the speed of your tongue.
Shakespeare, Much Ado About Nothing


Colectivamente somos BARULHENTOS. Incómodos. Agitação, balbúrdia, rebuliço não nos intimidam. Impomo-nos, aos safanões, como povo alérgico ao silêncio e apto para provar a todos os dotes de Caruso em cacofonia.

O "demasiado alto" foi riscado vitaliciamente e por isso vamos à frente e isolados, numa competição quase sem rivais, como vuvuzelas incómodas e histéricas.

  Por natureza própria e confirmada, falamos  alto com o vizinho do lado como quem assume que ele está a quilómetros de distância e sem nos ouvir. 

  Temos pré-amplificação hereditária garantida ao nível das cordas vocais. Estridência ao nível da língua. Entoação de eco em promontório  alpino.

  Somos, congenitamente, incapazes de sussurrar. Decibéis ao rubro. Como quem nasce equipado com microfones e colunas adequadas para espectáculos em grandes espaços. 

Desprovidos de motivação para passar despercebidos. Colocando-se em bicos dos pés e anunciando-se (ALTO): “Estou aqui, estou aqui!!!!”.

  Ao contacto leve com o areal não gaguejamos e perdemos as maneiras. Aparecendo na praia, desde cedo, com dois meses de forno não para garantir anonimato mas inveja. Evidenciando-se com ruído idêntico ao do Maracanã em dia de Fla-Flu, enquanto se avança pela zona dos chapéus dentro com toda  a torcida do futebol de praia em polvorosa.

O mundo bem pode ser um palco mas é no relvado atlântico que se revelam os talentos.

  Usam-se os quatro, cinco, seis ventos para levar a mensagem mais longe. Berrando como se os fígados estivessem a pingar derretidos, directamente, para a toalha.

Apregoando a dúvida se são mais as varizes, as estrias ou as ilhas de celulite da jovem à beira-mar. Se havia necessidade do cabelo loiro da mãe que a acompanha. E se os estampados florais nos fatos de banho da promoção podem ser considerados revivalismo de bom gosto.

  O relógio interior que nos regula o barulho anda desregulado há anos e o tom de conversa normal está subido e com débito de banda de garagem empenhada. 

  Colectivamente somos barulhentos. Falamos por cima de quem tiver que ser.

Não acreditamos em aparecer com pezinhos de lã. Andamos com um púlpito atrás, constantemente, convencidos de que estamos a falar com grandes plateias  e auditórios ávidos por nos ouvir. Sempre preparados para o contacto com as multidões.

Trombetas em riste anunciando-nos ao mundo. Em constante atitude provocatória toureira: “Ei, tu aí!?”.

  Em termos europeus fazemos claque por todo o continente. Damos a conhecer a vida ao mundo e subvalorizamos a descrição. Deixando para trás a pergunta: TANTO BARULHO PARA QUÊ?

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publicado por Carlos M. J. Alves às 09:54

III O primeiro escaldão do ano

Sábado, 03.08.13

Uma camioneta de veraneantes açambarcou, assoberbada, o areal. Unidades furiosas enfrentando destemidas as vagas de ultravioletas, fintando-os como à crise com um arsenal de estratégias perfumadas. 

Contestaram as fronteiras entre a zona exclusiva para chapéus e a área das barracas. O arrendamento repousa, auspiciosamente, sob decreto idêntico à lei das rendas mas, ainda assim, este não fez perigar a taxa de ocupação para níveis inferiores aos dias de promoção no  Pingo Doce. 

O episódio deu-se a seguir  a uma dona de casa irada estar prestes a açoitar o marido, por ele perder o lugar junto às rochas para uma loira platinada, ainda perto dos garotos que enterram e desenterram tesouros. Mal se apercebeu que escavam frenéticos prestes a avistar Tiananmen.

   O remanescente do contingente iça pavilhão em modo casca grossa à esquerda, novo-rico à direita e queque ao centro. O habitual!

   Observando-os conclui-se que, aparentemente, a geleira continua a levar a melhor sobre o saco térmico e a sandes mista faz as vezes do bitoque.

   No final com as iscas já ao sol o areal fica lotado, preparado par um bronzeado integral ou às tiras, sobrando apenas lugares ao colo. Acaba disposto em quadrícula, recortado por corta-ventos e chapéus-de-sol de marcas de cerveja, café, bronzeadores e cremes para esfoliação rápida. 

   Por falar em Inferno, já estirados de caras para o astro-rei e de Best-seller em riste Dan Brown vai à frente nas leituras de verão, deixando José Rodrigues dos Santos bem para trás e Paulo Coelho abaixo do expectável.

   A montra dos recém-nascidos possui cerca de quinze palradores, desmentindo as estatísticas da natalidade negativa.

  Cerca das onze horas detractores das geleiras e sacos térmicos testam a pressão dos barris de imperial - como quem se assegura da autenticidade dos Michelins novos - do apoio de praia que insiste nos êxitos de verão brejeiros e no berbigão, em partes iguais.

Recuperam, acalorados, da jornada do Grand Slam que teve início uma hora antes, frente ao ponto de hidtratação que agora ocupam, com a mesma euforia que se estivessem em Wimbledon.

  Olhando as costas à Benfica do meu vizinho, mantenho os níveis de concentração. Olhos postos na camioneta de veraneantes.

O meu coração continua a ser de Leão e está protegido com cláusula factor 50.

  A plateia continua destapando e oleando em proporção inversa ao conselho médico, à medida que o número de caminhantes da ultra maratona enfezada, à beira-mar, aumentam.

  A Super-bock continua à frente no caleidoscópio de chapéus-de-sol seguida pela  Delta e Buondi. A Ambre Solaire ainda não se viu.

  A bandeira começou amarela e acabou vermelha. Até ao almoço chegaram mais sete autocarros. Salvo erro!

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publicado por Carlos M. J. Alves às 21:04

III Fim do verão, fim do mexilhão

Quinta-feira, 13.09.12

Para todas as mulheres que, invariavelmente, durante o veraneio, vêem os esposos contaminados, por imitação, pela síndrome da captura obsessiva de bivalves. Pagando pelo envenenamento com o encargo obrigatório da transformação diária da sua apanha em pitéu.

 

 

O homem  do bronzeado listado e artérias congestionadas adiantou-se em passada vigorosa de Usain Bolt para a revessa da barraca, vindo, directamente, da matança: três quilos de bivalves voando do ninho oceânico para uma primavera prisioneira em banho Maria, azeite e especiarias q.b. na cozinha do fogo arrendado para a época.

Manhã usada na íntegra. Submerso nas paredes das piscinas naturais, perseguindo os tesouros que se escondem na sua rugosidade, em equilíbrio instável. Separando o trigo do joio, em peneiração atenta e selectiva.

Gene Simmons de Speedo e saco de plástico transbordando de mexilhão, apanhado com mestria de homem aranha galgando rocha, esgueirando-se à concorrência como quem não dá tréguas aos arqui-inimigos.

Costas refulgindo, com a cor a que Rui Costa, em tempos de glória, gostava de se entregar.

Passada vigorosa de Bolt, altiva, como quem enceta jornada no ar, circulando sobre cabedal italiano para almofadar a pegada.

Saco transbordando de espécimes timidamente vivos com a concha negra azulada estorricando. Campeão inflado de uma Champions league de apanhadores-amadores-de-lapas-mexilhões-e-mais-houvesse. Açambarcadores da maré vazia, rivais da biodiversidade. Distribuídos às mãos cheias pelos territórios de pernoita da espécie.

As costas com o rubor que Rui Costa gostava de usar. Em labaredas. Alerta laranja. 

Orgulhoso. Preparado para fazer mais vítimas.

"Para arranjares para o almoço", diz à mulher, mal corta a meta, fazendo-a saltar páginas  na Crónica Feminina. Passando-lhe a taça. Diana arrependida, estendida na toalha, divorciada da caça e com leitura comprometida. Sobressaltada. Cabeça ainda tombando para a revista. Sonolenta. Sonhando com mexilhões gigantescos irados acabando de tomar o mundo, fazendo reféns terráqueos sanguinários, aproveitando-os para a frigideira, salteando-os, vingando os companheiros que tombaram época balnear após época balnear às mãos, sem remorsos, dos apanhadores-amadores-de-lapas-mexilhões-e-mais-houvesse.

"Não te esqueças os de limpar bem", aconselha o esposo, membro dos apanhadores-amadores-de-lapas-mexilhões-e-mais-houvesse, com desejos de grávida, colocando-os aos seus pés como tributo à sua Diana reformada da caça.

Os outros apanhadores-amadores-de-lapas-mexilhões-e-mais-houvesse invejando-lhe o saque como abutres. Sem medo aos mexilhões extraterrestres. O areal demasiado módico para todos aqueles caçadores furtivos, naquele oeste marítimo iodado.

"Os de ontem não estavam bem lavados", acrescenta enxertado em boa disposição. Descrevendo a higiene parca, pretérita, do seu garimpo mexilhoeiro como uma púbis sobrando do exterior da concha assexuada.

"Amanhã apanho mais", garante preparado não para enfrentar mares traiçoeiros, mas as derrapagens inerentes a quem avança sôfrego pelos rochedos molhados e com penugem marinha deslizante, com o fito da captura da presa e sem preocupações suficientes para não acabar estendido sobre os agulhões dos penhascos, resvalando, com as costas lancetadas pela caruma vulcânica como um faquir impreparado.

A mulher olha-o, incrédula, resignada ao confronto com a aderência das cataplanas e ao desbaste da púbis bivalve, como quem diz:

"As coisas que a gente faz por amor!".

Resignada. A contribuir para a final da Champions league de apanhadores-amadores-de-lapas-mexilhões-e-mais-houvesse. Com expectativas de ver os mexilhões com direitos de espécie protegida ou aguaceiros poderosos e marés vivas horrendas, capazes de os rapar da costa vitaliciamente. Disposta a ceder o marido a uma terapia especial que o torne um cidadão consciente da necessidade da reposição dos stocks marinhos ou o leve a alternar os mexilhões por estrelas-do-mar, sem préstimos apreciáveis para refogar.

"As coisas que a gente faz por amor!", repete, arrependida e consciente de que isso vai desaparecendo como um rímel que vai esborratando e precisa urgentemente de retoque.

"Pescada com todos", pensa em tom de grito de Ipiranga, lembrando-se do jejum forçado interrompido pelo mexilhão dos almoços, com que obrigatoriamente se vai amanhando.

Para o ano apregoará para si o acumulado de anos de dedicação conjugal. Sofrerá por insinuação hipocondríaca de enfizemas gravíssimos, faltas de ar ininterruptas e devastações pulmonares improváveis. E insinuando-se em apelo "As coisas que a gente faz por amor!" reclamará veemente, na fronteira do impropério, que férias só nas termas.

Enquanto isso não acontece, felizmente, amanhã têm de entregar a casa e o verão está a acabar.

Se o plano das termas não funcionar, pelo menos, na pior das hipóteses, mexilhão só para o ano.

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publicado por Carlos M. J. Alves às 08:19

III Amores de verão

Quarta-feira, 29.08.12

Amores de verão ficam enterrados na areia.


O verão abre, sentimentalmente, caminho para o gato ir, sorrateiro, às filhoses, ou cobiçar as galinhas do outro lado da cerca, por causa da vizinha. Primeiro fica-se com ideias melosas e a seguir vai crescendo uma aparente comichão incómoda que faz passar à prática, como profilaxia para o fim da urticária amorosa, acabando-se com mais um lugar à mesa. O verão é tempo de amores. Sem esquisitices, mas com preferências. Não se pesam prós nem contras nem se avaliam consequências.

   Embora inconsequentes, os amores de verão adoçam a boca, animam as férias. Com eles não se sabe muito bem ao que se vai, algures a sul de nenhum norte ou 40 graus à sombra e tanto dão para aparecer nas dunas, à boleia como em versão interRail. São herdeiros de uma grande tradição e podem muito bem ser entendidos como a realeza do amor livre mais uma cabana, incenso ou velas aromáticas e produtos  à base de  cabernet Sauvignon baratos. 

   Saíem, levianos, do armário ou de onde tiverem de sair, do que os reprimiu durante o resto do ano, para viverem, desimpedidos, a "vida louca". Em modo de descoberta sacerdotal à procura de um sentido último cândido e virginal ou tomados por um frémito apimentado tipo Red light district, desdenhando resguardos e purezas. Piscam o olho à oportunidade, atentos a bons negócios, prontos para fechá-los e para o que der e vier e, ainda, dão boas histórias e ficam no ouvido. 

   São malandrecos, inconscientes, atrevidos e não conhecem idades. Vão da descoberta da cor dos olhos até... Procuram, inevitavelmente, companhia. Têm isso em comum!

   Aparecem, desinibidos, com o calor, quando menos se espera, só falinhas mansas, lançando brados de "Viva a diversão!", apreciando a festa e em caso de sucesso gritando "iupi!". 

   Se fossem a peso eram levezinhos. Um objecto e seriam um tubo de ensaio jorrando borbulhantes arco-íris e mel em abundância.

   Surgem, de rompante, trazendo areia nos pés, sal ainda agarrado à pele (mas, também, podem ser de água doce), vestindo biquíni e sempre bronzeados. São ligeiros, leves e aproveitam a época balnear, sendo apadrinhados pelos amigos. Tornam-se, rapidamente, Sonny & Cher, Kate Moss e Pete Doherty. Inseparáveis como siameses e assumindo-se por inerência.

Mais?

   Os amores de verão, são transitórios, não têm tempo a perder, quase não dá tempo de conhecer os cantos à casa. Temem-no como se suspeitassem que o juízo final é para o dia seguinte e têm ritmo próprio: o das ondas, das marés, luas, madrugadas e entardecer.

   Não pedem nada em troca e não têm compromissos, são descontraídos, despreocupados e não alimentam esperanças de algo mais nem dão em casamento. Pode até dizer-se que são descuidados. De uma maneira geral, não complicam e, também, não exigem grandes explicações.

   Nascem onde calha, não se queixam de falta de mobilidade, estão sempre em trânsito e por isso são poliglotas, dizem facilmente: amo-teI Love you, Te amo,  Je t'aime, Ti amo, Ich liebe dich, Ik hou van je...

   São ocasionais, para quem tem disponibilidade, surgindo entre parceiros de sueca, na toalha ao lado ou à beira-mar. Geralmente são amigas da amiga e assumem que amigo não empata amigo.

   Há quem enumere com precisão e rigor contabilístico os amores e veja nisso algo tão natural como estar habituado a reconhecer nos tacos de golfe uma numeração auxiliar, mas nessa contagem os de verão são à parte, distinguem-se dos demais. São um acrescento. Se os convencionais, quando terminam são -1 os de verão são ++1. Não partem do mesmo lugar e têm um circuito diferente. É um subir ao Monte Olimpo à espera de ser favorecido e o resto é história.

   Os amores de verão assemelham-se uns aos outros: duram o que têm de durar, consomem-se rápido, trocam, rapidamente, carícias, partilham protector solar e alimentam-se em esplanadas.

Saem à noite e acordam de manhã, vão juntos à piscina e aparecem com as mesmas olheiras.

Apreciam o pôr-do-sol, mas esperam por vê-lo nascer.

   Para que não passem despercebidos, dos amores de verão sabe-se que, vêm e vão, não fazem juras, nem prometem amor eterno. Não têm muito para dar, pertencem à época. São sazonais, passageiros, efémeros, não fazem frete nem se fazem velhos. 

   Os amores de verão são tempo bem passado. Duram enquanto duram, pois requentados não sabem tão bem. Essa é a razão porque não são para sempre, vão na onda e acabam sem mágoas. No fundo, acontecem porque têm que acontecer.

No fim,  deixam contacto e  partem, dizendo até para o ano. São de aproveitar e depois como diria José Cid em relação a Um Grande, Grande Amor:


Adio, Adieu, Auf Wiedersehen, Goodbye
Amore, Amour, Meine Liebe, Love Of My Life

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publicado por Carlos M. J. Alves às 17:19

III O verão precisa de espaço

Terça-feira, 07.08.12

Vejo-os aproximarem-se. Batendo asa para um sul que me inclui. Acercando-se de mim. Correndo esbaforidos como se temessem não ficar incluídos na distribuição dos ultravioletas por pura velhacaria. Não confiando na suficiência das dunas. A distância encurtando. Os chinelos encartuchados nos bolsos dos calções enramados. O saco da promoção Piz Buin abarrotando, competindo com outros dois de uma churrascaria, enfeirando brinquedos e mantimentos para a tropa. 

   Olho à minha volta. A praia tem pouca gente. Uma língua deserta do tamanho de Madagáscar. A crise... Estou tranquilo.

   Vejo-os aproximarem-se, encarniçados, em passada frenética, um ai sim, um ai não. Baralhado pelas t-shirts coloridas, anunciando hipermercados em promoção.

   Olho, novamente, ao meu redor. Confirmo que a praia é um interior desabitado. A crise, claro! Permaneço tranquilo. A salvo na minha língua deserta.

   Continuam a aproximar-se, reparo temeroso. Um ai sim, um ai não como se o areal tivesse propriedades vitrocerâmicas e atingisse temperaturas capazes de liquefazer aço. Nada os detém. Questiono a fartura da minha língua desértica.

   Aproximam-se. O cinéfilo que há em mim pensa em Jawsdam-dam, dam-dam, dam-dam. Barbatana assomando por entre as duas pernas de frango estampadas no saco da churrascaria, asfixiando na cova do braço do latagão que traz a bola de futebol.

   Sinto os dentes trincando. Dam-dam, dam-dam, dam-dam. Intranquilo. Nem a crise. Os ais cada vez mais próximos. A língua deserta do tamanho de Madagáscar desidratada.

Disfarço.

"Já está a escaldar", oiço ao meu lado, como se repartíssemos o Etna.

Já somos vizinhos.

Disfarço, ainda mais.

Não quero olhar, mas imagino as plantas dos pés derretidas.

"Bom dia!", cumprimenta o patriarca sacudindo para cima de mim a lava dos tornozelos.

São “simpáticos”, reconheço.

"Bom dia!", respondo.

Sou rapidamente ensanduichado. 

O chapéu-de-sol com a marca de um refrigerante acrescenta sombra ao meu.

Uma média assustadora de uma toalha por cada dez segundos vai crescendo geocentricamente, acrescentando-se à área coberta do abarracamento: armações e avançados.

   Tento relaxar entre as ameias. Dormir seria uma boa ideia. Descontraio. 

Mobilizo o sono:

 

Um veraneante assassinado, dois veraneantes assassinados, três...

 

 

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publicado por Carlos M. J. Alves às 18:48

III Limpezas de verão

Segunda-feira, 30.07.12

Antes da praia, parecendo ter que a merecer ou depois dela em forma de "quem não aproveitou que aproveitasse", surgiam invariavelmente as limpezas de verão.

   Enojados e pouco convencidos com o argumento de que "a limpeza nunca é demais" e promotores de um asseio que não se quer enfezado começávamos, em redenção pelo resto do ano, acudindo ao mais urgente, desfazendo-nos do que ficara do inverno. 

Não sem principiar com uma investidura, fundamental para a depuração seguinte, de "tu fazes isto e aquilo", "tu limpas aquilo e tu aqueloutro", "atenção a isto e a outro tanto". 

Numa fase que contava já com o pai ricamente disfarçado como se fosse assaltar um banco e a mãe equipada para fugir às nódoas como se escapasse à radioactividade. 

Eu cumprindo involuntariamente o encargo pré-determinado e escapando aos calduços dos investidos enquanto passarinhava com uma desonrosa roupa-velha-que-não-mete-pena-quando-se-estraga.

   Deitar fora, arrumar e limpar, em penitência pelo acumulado, tornava-se uma missão. Dava-se caça aos bolores, às rachas, ao pó, às teias de aranha, a algum mau gosto; limpava-se, decapava-se, raspava-se, tapava-se, pintava-se até ao ponto de quando empanturrados pelo expurgo se achar que ficava assim até ao próximo ano para nova despoluição.

Lixívia, detergentes das marcas que no ano anterior conseguiram bons desempenhos (frequentemente pelo menos um limpa vidros e um par de desinfectantes não resistiam e viam o seu esforço suprido), tinta (de areia, óleo e água) encomendada ao balcão de uma loja de ferragens gerida por especialistas, vassouras, espanadores, pincéis e rolos faziam o nosso dia-a-dia. Mais tempo, tarefas divididas e partilhadas, má vontade e resignação à mistura com barras, pinturas novas, desinfecções, rádios debitando clássicos, admoestações, estratégias entusiastas e repreensões.

   Aspiradores em plena sucção e trinchas de alto débito passavam de mão em mão. Os vidros andavam em alvoroço e os impressionistas que algumas limpezas antes tinham destronado as cenas de caça da sala de jantar arejavam, obrigatoriamente, na varanda.

A meio ouvia-se o habitual  dlim, dlão - "É aqui que é para entregar três latas de tinta?" - após se concluir mais uma vez que as encomendas não davam nem para metade das necessidades.

A arte sacra (duas santas facilmente reconhecíveis e uma imagem de S. João Baptista pouco consensual) ficavam no guarda-fatos até final, conseguindo o milagre de não acabarem com tinta.

Os livros ocupavam uma fracção das escadas, não se sabendo muito bem onde acabava o ensaio e começava a poesia.

Os tachos ganhavam vez para serem areados a seguir ao  hall de entrada que perdia em demãos para os fritos da chaminé.

Os tapetes acabavam substituídos antes do limite do prazo de validade previsto pelo vendedor optimista que lhes confirmara a qualidade imaculada.

Ainda comigo patinando na conversão, muitos comentários formativos  à base de "porque tu um dia terás a tua casa" eram acrescentados à já longa lista de minudências que caracterizavam as nossas limpezas de verão. 

Eu, pouco convencido, fazendo a minha parte, segundo quem participava nas exéquias, com olhos de carneiro mal morto e de roupa-velha-que-não-mete-pena-quando-se-estraga. Lutando calduço a calduço pela liberdade.

Um espectáculo digno de ser visto e aplaudido.

  E depois o final, com os anjos voltando para o firmamento do costume e mais o resto. Eu  usando, por imposição, roupa-velha-que-não-mete-pena-quando-se-estraga. O pai ainda como inimigo público número um preparado para o golpe do século. E a mãe ilesa, acabando de ludibriar mais uma vez a radioactividade.

   Felizmente, nem sempre temos que seguir os conselhos dos pais.

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publicado por Carlos M. J. Alves às 09:30

III Tempo de verão

Sexta-feira, 27.07.12

O tempo é pouco. De menos. Ameaçado de extinção. Raramente encontrado em abundância. A queixa mais partilhada e a fazer jurisprudência dá-o como escasso, glorificando-o.

   É um luxo para bolsas privilegiadas. Maioritariamente inalcançável e sem versão simplificada, mais económica e depauperada em apps disponíveis.

Não se encontra à mão nas lojas de bric-a-brac, na prateleira dos perecíveis, nem se percebe que se disponibilize em fancaraia.

   É discriminatório e só para alguns afortunados. Tê-lo, entenda-se. Dispor dele, acrescente-se.

   É preciso até para não fazer nada, somando-se ao sofá fundamental, atitude consentânea com o ócio e luta contra o preconceito de que devíamos estar a fazer alguma coisa. "Alguma coisa" que pelo modelo vigente parece ser sempre preferível ao "nada", bem como o "ocupado" em relação ao "desocupado", a "acção" à "inércia", consumidores improdutivos e desnecessários de tempo.

Daí resultando a afronta inerente a alguém dizer "Vou aproveitar este bocadinho para não fazer nada". Uma contagem decrescente para a acusação. O que contraria a ideia de que a boa vida é gratuita. Não custa nada. Quando é sempre mal interpretada e nos incrimina.

   Porém, tudo é diferente nas férias, quando o tempo tem uma contabilidade própria, mais flexível e menos exigente.

O tempo que é pouco aí serve perfeitamente para os gastos.

   Ter férias é usar o tempo na falta de ocupação. Apostar na inexistência de preocupações. É mordomia. Viver em modo "não estou para isso", "E então?", "desde que não tenha que me chatear" ou "alinho desde que já venha feito".

A queimar a apatia e a roçar o desinteresse. O tempo de verão é diferente do tempo do resto do ano. As manhãs são longas e de persianas corridas, as noites prolongam-se despressurizadas, as temperaturas são desérticas...

   Ter férias é ter tempo a sobrar. Sem atrasos. Em exclusivo. Para desbaratar. Para si, para os outros, para o que der e vier. Para não pensar em nada. Privilegia-se o dar na bolha. Mais a boa vida. Menospreza-se a velocidade. Diz-se não às arrelias e às decisões. Vive-se em regime de estaca zero, sem ambições. Sem agenda. Com pouca roupa. E grelhados. À sombra q.b. Ao fresco. Bem hidratado e com película generosa de protector. Moelas saborosamente condimentadas mais caracóis em habitat de pires. Sem relógio à vista e horários de faz-de-conta. Aplica-se o tempo onde ele mais faz falta: em não fazer nada.

Fica-se orgulhosamente aquém. Desperdiça-se. Há toda uma lista a poder ser feita de coisas que ficam por fazer, por pensar, planear, por decidir, por ver, por verificar.

Há um acordo tácito de que não se regateiam horas, nem se conquistam pressas. Damo-nos bem em qualquer lado ou clima. Não há neblina ou temperatura desagradável. Vivemos em ambiente We are the world e/ou People have the power. Sem nada melhor para fazer. Disponíveis para ir a banhos, expulsando o muco nasal e para bronzear onde outrora empalidecera.

   O melhor de ter tempo nas férias é poder desperdiçá-lo sem nos acusarem de preguiçosos. Alimentá-lo carinhosa e languidamente a bolas de Berlim, pernas-de-pau e boémia, 40 graus à sombra com a pele gostosamente a desidratar.

   O pior é quando acaba e o temos de usar todo para fazer o que nos mandam. E mais houvesse. Aí suspiramos saudosistas por aqueles dias em que olhávamos para o horizonte despreocupados como se esperássemos por um espectro sebastiânico, séculos atrasado, de montada fresca e império para revitalizar. Dizendo, patrioticamente, para o defender que há coisas que vêm sempre a tempo.

E enquanto distraídos pensamos nisso, entre os apupos do chefe que nos faz abruptamente descer à terra, arrependidos e entre mil perdões, percebemos que voltámos a ter tudo para fazer para ontem.

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publicado por Carlos M. J. Alves às 09:30









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